Esta é a história de um lobisomem e sua cidade, eu não conheci muitos
lobisomens, mas uma coisa eu sei que é verdade: eles nem sempre são mals, e
para minha infelicidade, nem sempre são bons. Na cidade em que eu cresci
existia um lobisomem, e foi por conta dele que decidi dedicar minha vida a
caça-los, mas este tinha algo de especial, ele era mais humano que lobo. Não
digo que ele usava roupas ou tinha piedade de suas vitimas, a única coisa de
humano que este tinha era sua inteligência e malicia que um animal não tem.
Fui para esta pequena cidade verificar se as historias que ouvi dela eram
reais ou contos de fada. Como sempre faço em minhas caçadas, eu conheço a
cidade antes de mostrar que sou um caçador, desta vez me mostrei como um
vendedor de moveis, mas geralmente finjo ser um fabricante de bebidas. A
história é sempre a mesma, digo estar interessado em ganhar a vida na cidade e
quero saber se me mudo para ela ou tento a sorte em outra. Pelo meu
procedimento padrão, fico uns meses esperando as informações chegarem e se não
chegarem me mostro como um caçador e tento busca-lo diretamente e para minha
sorte as informações vieram.
Não demorou muito, em um mês sujeito afirmou ter visto o lobisomem e cheguei
nele com o pretexto de vender moveis. Ele não conseguiu ver bem o bixo, mas
consegui descobrir que poderia ser real, a descrição da lua cheia e um animal
que andava de quatro patas levantando eram indícios fortes. Outras pessoas
afirmavam terem visto eles, e para minha sorte, uma destas pessoas precisava de
uma mesa nova.
Eu já estava acumulando muitas despesas e pensando em quebrar o disfarce
quando algo aconteceu: numa noite de lua cheia, um jovem foi encontrado morto
numa rua atrás do cemitério. Ele tinha marcas de aranhados e mordidas, pareciam
mordidas humanos, mas um especialista como eu percebeu que eram profundas
demais para um humano, não pude ver muito para parecer apenas uma curiosidade,
mas soube que este lobisomem é do tipo que morde e arranha, agora sabia que era
alguém com unhas não cortadas. Para não quebrar meu disfarce, fiz uma confissão
ao padre de deixei que ele contasse à cidade que um caçador de lobisomens
estava na cidade.
A noticia logo se espalhou, e a cidade já estava planejando como ajudar este
desconhecido. Eu claro pensava num pagamento generoso e ajuda com informações,
o resta faria só. Como de costumo, vi que não mostrar quem eu era foi de grande
importância. Na lua cheia seguinte ao meu anuncio, um coroinha da igreja foi
morto pelo lobisomem, e com seu sangue ele escreveu "vá embora". Como
pedi ao padre, fizeram com que todas as pessoas passassem pelo local para ver o
corpo, assim podia ter informações sem quebrar o disfarce. Percebi novamente
cortes de garras, mas desta vez sem mordidas.
Esta foi a primeira vez que vi um lobisomem que sabia escrever. Até então
achei ser impossível usar a inteligência em meio as ira e fúria instintiva de
um lobo. Em vez de medo em poder ser descoberto minha vontade de caça-lo apenas
cresceu, e ainda mais com as outras coisas...
